quinta-feira, 22 de junho de 2017

(64) O Mar chora...

Sei que o mar chora...
Lágrimas de quem revolteia na areia
A paz que não tem,
Os sonhos que não realiza.
Há lágrimas tuas neste mar!
Há lágrimas minhas que não viste
E na areia as pegadas
De quem quer caminhar e não tem força.
Só sei que o mar chora...
E revolteia nas rochas
O furor de tanta pancada que já deu.
E nem a carícia das gaivotas 
E o calor do sol,
Acalmam o sofrimento das ondas,
A fúria das águas,
A espuma de raiva, que só o mar tem.
E volto...revolto para te deixar
No caminho que segues,
Que não medes, nem olhas,
Não avalias, nem pensas...
Apenas caminhas...
Caminha...vai acalmar o mar!
Limpa-lhe as lágrimas salgadas,
Pede-lhe acjuda para a tua dor...
Eu, por mim, sairei da praia,
Ficarei por perto,
Porque para lágrimas 
Já bastam as minhas.
Vai...chora com o mar. 
Talvez o reconfortes
E lhe dês PAZ...

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

(63) Marés...

"Sabia que aquela talvez fosse a última vez que a tinha visto. Num turbilhão de emoções que lhe inundavam a mente, sentia-se ser levado pela maré. Não queria, Queria voltar a estar com ela nem que fosse apenas mais uma vez. 
No canto do olho uma lágrima teimosa escorria pela face, Salgada, ardente, dolente..
Pegou num papel. Era como se acenasse com um lenço branco de adeus e nele gravou toda a sua amargura e saudade:

MARÉS

"Gravo com os pés figuras na areia,
Na tentativa vã
De alcançar o fundo da solidão,
Deixo os sonhos deslizarem pela mão
Vou deixar o destino serenar o coração.

Espero, luto, tento em vão,
Do céu, nada vem, nada cai!
Efémero capricho é este vivido!
Afogo os meus temores, a alegria se vai
Azedo desacerto este, que me faz sentir perdido!

Apagaram-se os riscos, o mar os levou,
A cada respiração, a cada arfar do peito
Ouço o bater do coração descompassado, que o tempo parece quase parou.
E é nesta minha luta de viver, sem jeito,
Onde o mar e os sonhos, 
são o meu castelo altivo,
Que, ergo a muralha, à maré em que vivo.

A onda espraia-se, 
E o meu pensamento leva e traz
E é neste tão doloroso penar, 
Onde fica o meu sossego!
Que, a esperança não morre, é de paz.
E volto de novo à vida, á força e ao apego.

Levarei avante, meu caminho até ao fim!
Com os pés na areia, gravo novas figuras,
E se a maré as levar, 
Não me levará a mim.
Ficarei só, esgravatando a areia,
Desenhando a vida, novos caminhos,
E do alto do meu castelo, na ameia,
Esperarei sereno, novos carinhos."

31-Jan-2017

Limpou uma última lágrima, não leu novamente para não filtrar as emoções, dobrou em quatro e guardou no bolso interior do casaco.
_ "Acho que é tudo ou nada" - lamentou em silêncio - "Talvez ela goste..."

sábado, 26 de março de 2016

(62) Distâncias Insuportáveis...

"Sexta-feira Santa...sem planos, procuro o lugar de sempre, a esplanada de sempre, aquele mar que nunca é o mesmo e as gaivotas que apenas parecem as mesmas. Tento enlevar-me no silêncio do seu voo deslizante, para tentar fugir ao bulicio das pessoas que procuram desenfreadamente um lugar ao sol, mas esse silêncio é uma utopia. Nunca fui de multidões e muito menos irrequietas. Evito marasmos e cultivo a tranquilidade, a paciência sempre foi uma arma e a ansiedade uma coisa irreal. Sei onde estás, nào sei onde estou, e consigo imaginar um sorriso que não vejo porque o passado é algo que lembro quando necessário, mas o presente é o meu foco e o futuro é certamente o meu caminho que desconheço. Sempre tive a certeza de que viver é uma tarefa, e deixar de exercê-la é perda de tempo. Então eu simplesmente vivo...um dia após o outro, um passo de cada vez, porque há distâncias insuportáveis..."

segunda-feira, 2 de março de 2015

(61) Atitude Positiva...

“Naquele olhar que sorria, residia o segredo. Não fugia nunca dos seus problemas nem se desesperava. Encarava-os de frente com coragem e determinação, porque sabia que se não os resolvesse no próprio dia, certamente teria que fazê-lo no dia seguinte porque eles continuariam a existir enquanto não fossem resolvidos, prolongando a sua impaciência.
Sabia bem que era preciso ter vontade de viver com determinação... 
A vida sempre lhe impôs mudanças, e não existiam problemas sem solução! Acreditava que por mais difícil que tudo parecesse, o segredo era ir buscar e aceitar os desafios com sabedoria e resignação, pois por incrível que parecesse, esses problemas incentivavam-na a lutar por aquilo que até agora, permanecia estático e adormecido por medos... Pensava: “sou capaz de afugentar medos, e com certa generosidade, consigo vencer todas as situações difíceis que fazem parte do meu percurso existencial. Sim, tenho a certeza que sobreviverei a todas as quedas!”
Determinação, coragem e auto confiança, sempre foram fatores decisivos para o sucesso que sempre desejou e pelos quais lutava dia a dia. Mas havia momentos em que a terrível “mente” lhe ditava condutas e regras que sabia que não podia infringir, mesmo que isso significasse não atingir o seu objectivo, esquecendo-se de como a sua “mente” podia de facto “mentir-lhe”…
A verdade é que para ela havia uma certeza: “Se estamos possuídos por uma inabalável determinação certamente que iremos conseguir superá-los.”
Mas a verdade mais profunda que ainda não percebera é que, independentemente das circunstâncias, ser sempre humilde, recatada e despida de orgulho, poderia não chegar. Era preciso ousar, ultrapassar limites da “mente” e dar aquele passo que a “mente” condena, mas que o coração dita…
Não poderia esquecer-se nunca, que uma atitude decidida era aquela que a impulsionaria a agir com determinação. Era a que a levaria a pedir a demissão do emprego e a ir à luta, porque descobrira que era preciso trabalhar com amor e dar o seu melhor naquilo que fazia. Era a que a fazia jogar fora o maço de cigarros e resolver que não iria mais fumar. Era a que a fazia terminar aquele relacionamento que não estava a funcionar mas que aceitava como válido porque a “mente” que nos mente, lhe dizia que era o mais sensato porque havia compromissos que deveriam ser cumpridos mesmo que pudessem ferir os seus mais profundos anseios. 
Nunca poderia esquecer-se, que a ATITUDE, é aquele passo bem pequenino, que aumentaria o seu poder sobre si mesma e a ajudava a escolher as experiências que queria ter. Porque essa “atitude” fazia-a olhar para dentro de si mesma a fim de que pudesse verificar se se estava a mover em direção às suas metas ou se, descuidada, estava a afastar-se delas sem perceber, porque apenas ouvia a sua “mente”. 
E nesse olhar assustado de menina-mulher, doce e meigo, com um sorriso lindo sempre presente, ela sabia que uma atitude decidida exigia liberdade, confiança, a habilidade de mudar sempre que necessário, porque mais importante do que acertar, sabia que era assumir o poder da escolha e decidir o que lhe parecia melhor e dar aquele passo, mesmo que tivesse que o dar sozinha e por isso ser condenada pela “mente”, mas exaltada pelo coração, porque o conseguiu dar, sem hesitações ou auto-condenações comportamentais. 
Uma atitude decidida deixa para trás cargas emocionais e não permite que frustrações passadas atrapalhem o presente. Ela tinha a consciência de que a vida acontece aqui e agora e de que é preciso que seja ela o agente da própria história. Quando optamos por ser quem somos e assumimos a responsabilidade pelas nossas escolhas sem medo da crítica ou de julgamentos, descobrimos a magia da ATITUDE DECIDIDA, porque é aquela que nos leva à vitória. 
Vai chegar um dia em que não irá aguentar mais a saudade das coisas que queria fazer e não fez, porque a “mente” lhe mentiu, e ela transbordará pelos seus olhos. E nessa altura, não saberá o que fazer com os seus dias que irão parecer tão compridos, nem como cessar os seus pensamentos quando a noite chegar. Será como estar sozinha, sem estar…" 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

(60) Decidida…imperturbável

“Não ligo que me olhem da cabeça aos pés...porque nunca farão a minha cabeça e nunca chegarão aos meus pés”
(Bob Marley)

“Este era para ele o segredo das vencedoras. Daquelas que sentem os olhares que despem e permanecem imperturbáveis porque sabem que na sua cabeça tudo está compartimentado e nela apenas penetravam os ideais que ela definira como essenciais para a sua caminhada, rumo a um êxito que ambicionava.
A verdade, é que mesmo que o tempo e a vida lhe tenham pregado dolorosas partidas, bem patentes nas esporádicas manchas de tristeza no olhar e naquelas teimosas lágrimas, que o passado deixou vincadas e que por vezes tentavam abrir caminho, aquele sorriso não se desvanecia
E era nesta certeza absoluta de que o caminho estava traçado, que se sentia a segurança de quem caminhava com os seus próprios pés, indiferente aos que tropegamente se afoitavam em tentar desviá-la do seu rumo. Como se gostasse de agradecer pelas inúmeras vezes que a olhavam, as mesmas inúmeras vezes que ignorara esses olhares, porque mais do que sentir esses olhares, evocava a sua capacidade de se olhar devagar, já que nessa vida muita gente a olhara depressa demais
Fora Pontual, como sempre. Era uma característica inata. Sentada num frente a frente de troca de ideias e de factos da vida, resplandecia por trás da cor negra que  integralmente vestia, numa apologia á classe que evidenciava em cada gesto, em cada sorriso, em cada palavra proferida e criteriosamente pensada. Não terá sido por acaso, pois o negro transmite introspecção, favorece a auto-análise e significa também dignidade, poder, sobriedade, hombridade, elegância. Tudo o que aquele olhar que sorria, conseguia transmitir, numa longa conversa de horas…
A sua organização mental reflectida no seu dia-a-dia, estava ali bem patente, imponente mas sóbria, protegida por aquela indumentária negra, sentada numa pose principesca pronta a escutar e a planear o futuro. No olhar a certeza de que o caminho obriga a ir à luta e em cada palavra escutada renascia um novo sonho, uma nova esperança, um novo plano. Pois sempre há coisas boas para pensar. Algumas realizar-se-ão…”

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

(59) Olhos que sorriem...

“Eu gosto de olhos que sorriem, de gestos que se desculpam, de toques que sabem conversar e de silêncios que se declaram.”
(Machado de Assis)

"Sempre pensara assim, mas muito mais intensamente no dia em que viu aqueles olhos que sorriam, enquanto na face mantinha uma postura profissional e de rara competência. E naquele olhar, podiam ver-se inevitavelmente derrotas temporárias, de formas diferentes, nas ocasiões mais diversas. E em cada adversidade trazia consigo a semente de um benefício equivalente. Ainda não encontrara ninguém bem-sucedido na vida que não houvesse antes sofrido derrotas temporárias. Sempre que uma pessoa supera os reveses, torna-se mental e espiritualmente mais forte... É assim que aprendemos o que devemos à grande lição da adversidade. Mas aqueles olhos eram diferentes…não, ele achava que não eram os olhos, mas sim o olhar sincero, honesto, com um brilho de luta inigualável. E o sorriso lá estava…mesmo que os lábios apenas cumprissem o dever profissional de pronunciar palavras simpáticas com um tom sublime de quem sabe as palavras de cor para atender todos, com a mesma simpatia cativante, mas profissional.
E ele absorto, contemplava este cenário com os olhos de quem avalia atitudes, comportamentos, gestos, sinais eloquentes de uma verdadeira profissional. E cada vez que ela levantava a cortina dos seus olhos, era como se contemplasse a maravilha do amanhecer, porque o sorriso estava lá e era verdadeiro…

A vida é a soma das nossas escolhas. E a maioria delas não é feita por nós. Aqueles olhos não escolheram sorrir, apenas sorriam com aquele brilho cristalino, porque o coração escolhera ser benevolente e autêntico nas suas atitudes. E por momentos ele percebeu como é único conseguir sorrir com os problemas, reunir forças na angústia, e ganhar coragem na reflexão.
Ela sorria... Mas não se escondia atrás desse sorriso...Mostrava o que era, sem medo.
Existem pessoas que sonham com o sorriso...
Ele precisava dizer-lhe:
- “Mantenha esse sorriso.”

sábado, 1 de novembro de 2014

(58) Faltam palavras...

“Naquele momento, ele sabia que lhe estava a escrever para quebrar a solidão dos seus dias sonolentos e de certo modo para espantar a solidão das noites, abraçado naquele mar que se espraiava pelo areal. Sentado naquela esplanada escrevia-lhe na busca da explicação do porquê daquela onda distante que agitava a alma, como um poema onde a rima era o caos.
Escrevia-lhe porque do papel irradiava a luz que iluminava a sua alma, e dava-lhe a companhia que naquela distância procurava, embora escrevesse por instinto e não por mágoa. Escrevia-lhe pelo sabor do vento, que tinha o gosto do seu rosto quando lhe tocava. Mesmo em silêncio, ia desenhando aquele sorriso que sabia de cor, como se ainda entendesse os inventados gestos e carinhos, que pareciam reais nos sonhos das noites em que não conseguia dormir, e, mesmo sabendo que se perdia na imensidão dos sonhos, ele escrevia-lhe, com todas as fantasias que conhecia, procurando em cada palavra aquelas ausências e ansiedades, que sempre tivera.
Sonolento, abriu os seus braços para o mar, enquanto sentia os seus pés afundarem-se na areia molhada...o imenso mar azul estava à sua frente e nele se reflectiam gotas douradas pelo sol e areia.
Pensava nela naquele momento e agradecia aqueles beijos húmidos da maresia, do abraço apertado daquelas rochas que o protegiam do vento e da íntima conversa silenciosa dos olhos...
Caminhava agora com passos perdidos na areia molhada que resfriava a sua alma e a sua vida, marcada pela paisagem...pela face uma lágrima serena escorria, dando profundidade a um secreto sorriso...
O vento já passara na tarde que se fazia outono e onde se desvaneciam alguns sonhos.
Parou. Sentou-se de novo, agora numa rocha lapidada pelo fulgor das ondas e retomou a escrita. Mudou a história, o tema da poesia, o drama da história que queria contar...
Envelhecera. No rosto e no corpo as marcas rudes do tempo e a réstia de orvalho que esbranquiçara os parcos cabelos. Outra vez soltava as palavras no papel com desvarios das horas na praia...
Levantou-se, endireitou as costas e decidiu continuar com o seu passeio na areia molhada, na tentativa de limpar da memória os seus passos e deixar as ondas para trás, seguindo uma direcção sem destino. Além da estrada, além do tempo, hoje decididamente não era dia para lhe escrever..."