quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

(46) Distância I...

“Estava frio. O sol de frente, aquecia um pouco as mãos enregeladas. Tentava a todo o custo, manter os seus sonhos numa distância segura da ilusão, tentando ser prático e realista e ao mesmo tempo visionário, mas acima dessas coisas esforçava-se para continuar a acreditar no ser humano.
As palavras mudas, diziam-lhe coisas por entre os seus lábios…adivinham a sua respiração próxima ao seu rosto e o cheiro dos seus cabelos quando amanhecia o dia. Por entre os dedos das suas mãos, fugiam os seus rumos, entre palavras não ditas, que se perderam umas nas outras e do gosto que suspeitava ter outrora a sua boca.
O amor supera a distância e não se curva ao tempo…e a distância não afasta e sim aproxima.
Envolto nestes confusos pensamentos, caminhava alheio ao bulício da cidade. Sentia vontade de ver o brilho nos olhos, o sorriso dos lábios e de conhecer os pensamentos. Queria saber se a distância não significaria esquecimento, mas sim e apenas um até breve, até qualquer momento.
Mas naquele dia, a sua monotonia chegara ao extremo e por consequência disso, ele ficara no mais solitário canto da sua vida, lutando com o “seu eu” e desfrutando de uma das maiores angústias…essa dúvida que o dominava por inteiro, tornando-o “escravo” e deixando-o sem atitude, sem a mínima noção do que fazer, pela sua falta de convicção…
Olhou uma montra, aconchegou o blusão e penetrou no emaranhado de corpos que circulavam. “

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

(45) A Carta...

A carta já ia longa. As palavras sucediam-se a um ritmo alucinante. Queria parar, mas não conseguia. Para ele, muito mais havia a dizer para que ela entendesse como estava a ser doloroso. E finalizou :
"-Continuarei, não sei por quanto tempo, a alimentar o sonho de construir um novo barco da nossa vida... este, mais resistente, mais impenetrável, maior... tão grande, que nele possamos levar os nossos filhos, a quem ensinaremos todos os segredos desta vida a bordo, neste mundo cheio de tormentas, de partidas e de chegadas e onde o amor que tudo vence, às vezes sucumbe por ser mal  alimentado... desrespeitado...iludido...
Ensiná-los-emos a estarem atentos, um dia de sol não quer dizer que o mar é menos perigoso... nem sempre os ventos permanecem estáveis... e a aragem às vezes inofensiva transforma-se rapidamente. em tormentas.
Neste porto seguro, neste barco blindado... estarás lá tu...sorridente, como “capitão” do barco da nossa vida, enfrentando com um largo e tranquilo sorriso, as novas ameaças que possam surgir, agora com muito mais confiança, porque o “pirata” que a teu lado estará traçando o rumo, cresceu, fez-se mais homem e aprendeu a lição.
Do homem mais triste do mundo... que já foi o mais feliz do planeta...e aconteça o que acontecer, quer que sejas eternamente feliz... estarei sempre do teu lado, sem nunca abandonar o barco... nem que seja pendurado lá trás, junto ao leme, até que nem um só bocado de mim exista.
O maior beijo..."

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

(44) Ela...

"Sentia-se um homem cheio de manias infantis...gostava de tudo do seu jeito e fechava a cara quando as coisas não aconteciam como queria. Procurava entender o porquê dos acontecimentos... e tentava aprender as lições que a vida colocava na sua frente... Não gostava de admitir que falhara, mas assumia os seus erros com nobreza. Fora sempre assim...
- É estranho...é surpreendente. Ela pode estar a sorrir de tudo, e de repente... estar sisuda por nada - tentava reflectir, enquanto se recostava nas almofadas da cama quente e bebia mais um chá de limão com mel que lhe amaciasse a garganta.
Não queria tentar adivinhar as suas acções ou as suas reacções...Não costumava insistir naquilo que percebia não valer a pena. Amava, amava incondicionalmente...Não odiava, não guardava mágoas, não pensaria nunca em moldá-la, embora já muitas vezes o tivesse tentado, com total fracasso...Gostava de deitar-se, fechar os olhos e fugir do tempo.
- É daquelas que pensa, repensa, e pensa mais uma vez antes de agir - absorto nesta ideia, sentia um aperto no estômago, só de pensar no que ela seria capaz de ponderadamente fazer. Rebuscou no meio dos seus papeis uma folha branca...queria escrever...adorava escrever o que sentia, o que pensava...e iniciou:
- Normalmente é uma companheira animada, agradável e alegre. Tirando as suas fases azedas com o seu cinismo e língua afiada, o seu outro lado é romântico e aventureiro...uma grande mulher - sentia que ao escrever isto, estaria a dar ouvidos á emoção...
A verdade é que no fundo, sabia que para ela, não bastava ouvir palavras carinhosas e juras de amor. Apesar de muitas vezes parecer fria e distante, ele sabia que ela desejava ser amada e mimada. Jamais ficaria em silêncio, se tivesse que falar.
- Com alguns defeitos e inumeras qualidades que a definem, não serão as palavras que a irão descrever... - pensava ele, enquanto amarrotava o papel. Sabia que o segredo estava em não tentar adivinhar, mas sim tentar desvendar..."

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

(43) Vontade...

“Naquela tarde, sentia uma indomável vontade de ir para algum lugar tranquilo e ficar por lá com a companhia de um livro. Qualquer que fosse. Mesmo que o pretexto fosse apenas fugir da sua própria cabeça. Sentia vontade de acordar numa manhã agradável, sentir o calor e a beleza de um raio de sol e vislumbrar esperança através de um ameaçador céu cinzento. Uma vontade inquietante de subir numa árvore bem alta e por lá ficar com os seus sonhos, bem mais altos que aquela árvore, enquanto ficava á espera de um pouco mais da vida.
- Mas a vida não é tão bondosa assim - pensou.
De facto não. Ela requer que lutemos, rastejemos por ela e imploremos felicidade. Mesmo assim, ele queria deixar a vida um pouco de lado. Manteria as suas vontades e teceria a sua própria felicidade.
Insistentemente esticou as pernas, bocejou, olhou os desenhos que as nuvens desenhavam sem querer e sorriu por não ter que pagar nada por isso. Sentiu a falta de uma mão amiga para segurar, um ombro para servir de apoio e ainda que não tivesse nada disso no momento, sabia que não tardaria a sentir essa protecção e liberdade. Mesmo sabendo que ninguém é de todo livre, nem de todo protegido. Mesmo sabendo que por mais que tivesse, necessitaria sempre de mais liberdade e protecção. Mesmo livre naquele momento, queria sentir por perto a presença dela...para olhar por si. Mesmo protegido, queria sentir o seu gosto, o seu cheiro...a despertarem os seus sentidos.”

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

(42) Destino...

“Saíra apressado… Tentava entender, a forma como o destino se apresentava. Como nunca - ou quase nunca - estamos cientes de quando fazemos uma 'escolha' que possa mudar a nossa vida. Um caminho que mude tudo. Enquanto caminhava sonambulamente, pelas ruas quase desertas, recordava-se de uma frase que o marcara e sempre o fizera pensar :
- ‘Não sei se cada um tem um destino ou se só flutuamos sem rumo, como numa brisa, mas acho que talvez sejam ambas as coisas. Talvez elas aconteçam ao mesmo tempo’ (Forrest Gump).
E na sua cabeça a dúvida de sempre:
- Todas as vezes que olhamos para alguma coisa, será que é a última vez que a veremos daquela forma? - cismava ele, acelerando o passo - ou nunca mais estará exactamente igual?
A noite caía e os seus pensamentos rodopiavam na possibilidade de ter algum poder para mudar o destino, sabendo que seria audácia demais para humanos tão pequenos. Interiormente respondia que sim. Essa falsa convicção que o fazia pensar que se não tivesse feito certas coisas, feito outras, se acertasse, ou simplesmente tivesse mudado os seus erros, tudo seria diferente. Não sabia. Mas tinha a impressão de que tudo estava escrito. E que essas escolhas eram meramente utópicas e teriam algo muito maior por trás.
Por muito tempo, pensou que a sua vida fosse tornar-se uma vida de verdade. Mas sempre havia um obstáculo no caminho, algo a ser ultrapassado antes de começar a viver. Um trabalho não terminado, uma conta a ser paga. Aí sim, a vida de verdade começaria…
Uma certeza ele tinha, sabia que teria que examinar as suas situações e os seus actos, e a assumir a responsabilidade consciente dos seus comportamentos e as consequências que eles provocam…”

sábado, 23 de outubro de 2010

(41) Entardecer...

“Entardecia…
Calmo, insuportável e monótono entardecer, onde a mística secreta guardada pelas nuvens que cobriam o céu, faziam-no viajar através de pensamentos que ele mesmo, não conseguia de todo compreender. O tempo passava como a brisa e desaparecia com o entardecer.
- Costumamos acreditar que ser transparente é simplesmente ser sincero, não enganar os outros, mas ser transparente é muito mais do que isso...É ter coragem de se expor, de ser frágil, de chorar, de falar dos nossos sentimentos! Não achas? – Inquiriu ele, tentando que ela anuísse ao seu raciocínio sonolento.
- Muitos de nós, preferimos o nó na garganta às lágrimas que brotam do mais profundo de nossos seres, mas se agíssemos com o coração, poderíamos evitar muita dor. Não somos só razão, mas também coração – respondeu ela em tom sereno e convicto.
O alaranjado entardecer trazia a nostalgia, como se a vida também desaparecesse com o sol no final daquele dia. Ele, sentia vontade de sugerir que deixassem explodir toda a doçura e em silêncio, pensava como o tempo parecia brincar entre acasos e ocasos.
- Já pensaste – interrompeu ela os seus pensamentos – porque será que prendemos o choro, contemos as gargalhadas, escondemos os nossos medos?
Ele, permaneceu imperturbável, perscrutando o horizonte. Queria dizer-lhe que a razão era “porque pensamos que somos invencíveis”. Mas permaneceu silencioso. Preferiu ser mais positivo:
- Porque apenas queremos docemente viver, sentir e amar…e se for chorar, que seja de FELICIDADE! Quem te merece não te faz chorar… - concluiu.
Por momentos, as ondas serenaram. O sol já se escondera e uma aragem fria, fê-los aconchegarem-se. O café em cima da mesa da esplanada, já estava frio…

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

(40) Recomeçar...

-"Não sou um homem qualquer: tenho os meus limites e respeito os meus sentimentos. Mudo de opinião, mas não de princípios. Comovo-me, mas sorrio muito mais do que choro; amo certamente muito mais do que odeio! Acredito na vida, e sei que mais importante do que ganhar sozinho, é ajudar alguém a vencer... Se as coisas não saíram como planeei, posso ficar feliz por ter o dia de hoje para recomeçar. O dia está na minha frente esperando para ser o que eu quiser. Tudo depende só de mim!".
Há muito que ela o escutava atentamente. Olhar atento e o sobrolho franzido. Aquelas palavras continham força.
- "Sei que sim..." - fora a única coisa que conseguira pronunciar, perante tanta decisão.